Roraima investe na primeira infância e acolhe crianças refugiadas

As mãozinhas pequenas e a aparente fragilidade escondem um enorme potencial. A primeira infância, que vai do nascimento aos 6 anos de vida, é quando o cérebro do indivíduo está em formação: são mais 1 milhão de novas conexões cerebrais por segundo. O ganhador do prêmio Nobel de economia James Heckman defende que o investimento nesta fase traz o maior retorno para a sociedade. A partir das evidências, alguns governos já desenvolvem programas específicos para a primeira infância, como é feito há seis anos pela prefeitura de Boa Vista (RR).

“Assim como é importante a gente trabalhar na drenagem, no asfalto, na iluminação, é importante trabalhar com a primeira infância. Tem o mesmo peso. Isso porque é a fase mais importante da vida de uma pessoa”, defende a prefeita da cidade, Teresa Surita. O programa Boa Vista Capital da Primeira Infância reúne uma série de ações para atender essa fase, incluindo atendimento a gestantes, aumento de vagas na educação infantil e a criação de praças e espaços públicos para a criança, dentre outros.

Mas, em meio à implantação do programa, que já é referência para outros estados, Boa Vista se viu de frente a outro enorme desafio: a crise migratória. Desde 2017, mais de 200 mil venezuelanos já entraram no Brasil fugindo da crise política e social do país. De acordo com a prefeita, já são 70 mil venezuelanos vivendo na cidade – incluindo milhares de crianças até 6 anos de idade em situação de vulnerabilidade.

“Nós não vemos diferença entre a criança brasileira e a venezuelana, elas são tratadas da mesma forma e atendidas nos programas sociais da mesma maneira. Por exemplo, hoje, no programa Bolsa Família, cerca de 26% das famílias atendidas são venezuelanas, em um programa que a princípio era para brasileiros. Porque a gente entende que, dessa maneira, nós vamos evitar a xenofobia e trabalhar para que essas crianças que chegaram encontrem seu lugar. A gente cuida da primeira infância e sabe da importância que é você ter segurança, trabalhar os vínculos afetivos. Uma criança nessa situação chega toda fragilizada”, afirma Surita.

Uma das políticas públicas para a primeira infância do município é o espaço Família que Acolhe, onde mães e bebês recebem atendimento especializado. Além das consultas médicas, as gestantes participam de aulas sobre amamentação e aprendem a fazer brincadeiras estimulantes com os bebês. O foco principal, além de cuidar da saúde, é fortalecer os vínculos afetivos, que são fundamentais para o desenvolvimento infantil. Em seis anos, o programa já atendeu 15 mil famílias e mais de mil são venezuelanas.

Entre as mães atendidas está Leonela Azocar, que chegou ao Brasil grávida, como muitas venezuelanas. Deixou lá a filha Bárbara, de 2 anos, que hoje vive com os avós. Dormiu na rua e passou fome enquanto esperava o nascimento de Antonela, que hoje tem 5 meses.

“Me trataram tão bem, foi a primeira vez que eu tinha sido tratada tão bem assim no Brasil. Aqui me ensinaram muito porque eu já tinha minha primeira filha, mas lá eu tinha minha mãe e meu pai que me ajudavam. Aqui eu estava sozinha”, compara. Leonela sonha com o dia em que poderá trazer a outra filha para o Brasil.

“Todos os dias é como se faltasse um pedacinho do meu coração porque ela está longe. Quando eu como, eu penso: será que minha filha está comendo? O que será que minha filha, meu pai, minha mãe, estão comendo?”, diz.

Fonte: Agência Brasil