
A relação entre o regime de Nicolás Maduro e Cuba vai muito além da afinidade ideológica. Trata-se de uma engrenagem de sobrevivência mútua — e profundamente desigual — em que a Venezuela funciona, há mais de duas décadas, como principal sustentáculo econômico do regime cubano. Qualquer ruptura nesse eixo tem potencial para provocar efeitos em cascata sobre Havana.
Desde o início dos anos 2000, ainda sob Hugo Chávez, Caracas passou a fornecer petróleo subsidiado a Cuba em troca de apoio político, cooperação militar e, sobretudo, assessoria em inteligência e controle social. O arranjo se manteve com Maduro, mesmo diante do colapso da economia venezuelana, e se tornou um dos pilares menos visíveis, porém mais decisivos, da estabilidade do regime cubano.
A dependência energética é central nessa equação. Cuba não produz petróleo suficiente para abastecer sua própria economia e nunca conseguiu substituir integralmente o fornecimento venezuelano. Sem esse fluxo, o país enfrenta apagões, paralisação do transporte, dificuldades na produção de alimentos e colapso de serviços básicos — cenário que remete ao “Período Especial” dos anos 1990, após o fim da União Soviética.
A diferença é que, hoje, a situação estrutural cubana é ainda mais frágil. A infraestrutura está deteriorada, a população envelheceu, a migração em massa reduziu a força de trabalho e os protestos sociais, antes raros, tornaram-se recorrentes. O regime sobrevive com margem mínima de manobra.
Nesse contexto, qualquer perda de controle do Estado venezuelano sobre seus recursos estratégicos — petróleo, gás, ouro e receitas de exportação — representa uma ameaça direta a Havana. Caso esses ativos deixem de ser utilizados para sustentar alianças políticas externas, o impacto sobre Cuba seria imediato: fim do petróleo subsidiado, agravamento da crise energética e redução da capacidade repressiva do Estado.
O efeito não seria apenas econômico. A Venezuela também atua como plataforma diplomática e logística para a influência cubana na América Latina. Sem esse apoio, Havana perde alcance regional, enfraquece alianças e vê seu discurso político perder sustentação material.
A história recente oferece um precedente claro. O regime cubano resistiu por décadas não por eficiência econômica, mas graças a subsídios externos sucessivos — primeiro soviéticos, depois venezuelanos. A retirada desse último pilar recoloca o país diante de um dilema já conhecido: ajustar-se ou enfrentar um colapso prolongado.
Assim, mais do que um aliado político, a Venezuela tornou-se, ao longo dos anos, a principal fonte de oxigênio do regime cubano. Se esse fornecimento for interrompido, Havana entra em modo de sobrevivência. E, desta vez, sem garantias de que conseguirá resistir.