
O Partido Comunista do Peru, conhecido mundialmente como Sendero Luminoso, iniciou sua história de crimes em 1980, na região de Ayacucho, sob a liderança do ex-professor de filosofia Abimael Guzmán. Diferente de outros movimentos guerrilheiros da América Latina, o Sendero adotou uma interpretação extremista do maoísmo, o "Pensamento Gonzalo", que pregava a destruição total das instituições do Estado através de uma violência absoluta e purificadora. Para o grupo, o custo em vidas humanas era um detalhe necessário para a "vitória da revolução".
Um dos pilares da estratégia senderista foi o controle social por meio do medo, o que resultou em massacres sistemáticos de populações camponesas. O episódio de Lucanamarca, em 1983, permanece como o símbolo máximo dessa crueldade: 69 camponeses foram assassinados pelo grupo — muitos deles mortos com machados e água fervente — apenas para enviar uma mensagem às comunidades que tentavam resistir à sua influência. Esse padrão de violência se estendeu aos povos indígenas da Amazônia, especialmente os Asháninkas, que sofreram o que muitos historiadores classificam como um genocídio, enfrentando escravidão em campos de trabalho, desaparecimentos forçados e o extermínio de comunidades inteiras.
À medida que o conflito se expandia para as zonas urbanas, o Sendero Luminoso refinou o uso do terrorismo psicológico. A década de 1990 foi marcada por uma campanha de carros-bomba em Lima, cujo ápice foi o atentado da Rua Tarata, em 1992. No coração do distrito de Miraflores, a explosão de toneladas de dinamite não apenas destruiu edifícios residenciais, mas estilhaçou a sensação de segurança da classe média urbana. Somava-se a isso a prática de assassinatos seletivos de líderes populares que ofereciam alternativas democráticas ao povo, como foi o caso trágico de Maria Elena Moyano, líder comunitária que foi executada e teve seu corpo explodido com dinamite diante de sua família, um crime que visava silenciar qualquer voz de resistência social.
Com a captura de Abimael Guzmán em 1992, o Sendero Luminoso entrou em um processo de fragmentação e declínio. No entanto, o grupo não foi totalmente erradicado; ele sofreu uma mutação profunda. Hoje, os remanescentes da organização não operam mais sob a ideologia centralizada de Guzmán, mas se reorganizaram como o "Militarizado Partido Comunista do Peru" (MPCP), sob o comando dos irmãos Quispe Palomino.
A presença do grupo hoje está restrita a uma região geográfica conhecida como VRAEM (Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro), uma área de selva densa que produz a maior parte da folha de coca do país. A natureza do grupo mudou de uma guerrilha ideológica para uma organização narcoterrorista. Atualmente, a principal função dos remanescentes senderistas é atuar como segurança armada para as rotas do tráfico de cocaína. Eles cobram "cupos" (impostos de proteção) dos traficantes e realizam emboscadas contra as forças de segurança peruanas que tentam erradicar as plantações ilegais.
Embora o grupo atual tenha um discurso que ainda remete à retórica marxista para tentar cooptar a população local, suas ações são guiadas pelo lucro do narcotráfico. Eles mantêm o controle de algumas "zonas de produção" e continuam a praticar o recrutamento de jovens da região, mas perderam a capacidade de ameaçar a estabilidade do governo nacional em Lima. O Sendero Luminoso de hoje é um fenômeno regionalizado, uma mistura perigosa de crime organizado e resquícios de fanatismo, que mantém o VRAEM em um estado de guerra de baixa intensidade, impedindo que o Estado peruano exerça plena soberania sobre todo o seu território.